A temporada do Chelsea tem sido tudo, menos previsível. A gente olha pro campo e vê um elenco em constante mutação, sobrevivendo ao caos e, aos poucos, achando um jeito bem próprio de jogar bola. É só pegar o recorte das últimas partidas para entender bem essa dinâmica: fomos de um empate suado e tático contra o Liverpool fora de casa, sob comando de um técnico interino, a uma vitória contundente por 3 a 1 contra o Crystal Palace que teve a assinatura inconfundível dos garotos brasileiros.
O xadrez de Anfield e a resiliência do elenco
Quando o interino Calum McFarlane assumiu a bucha de ir a Anfield encarar o Liverpool, o departamento médico do clube parecia uma verdadeira enfermaria. Faltavam pontas de ofício, a galera de beirada estava toda indisponível. A solução tática? Soltar o Marc Cucurella no corredor esquerdo, pedindo para ele infiltrar por aquele lado. E o improviso funcionou que foi uma beleza. Ele explorou exatamente o mapa da mina que o Curtis Jones deixava aberto ao atuar improvisado na lateral direita. McFarlane exaltou a leitura de jogo do espanhol, o timing perfeito de atacar o espaço. Foi uma pena que os deuses do framerate do VAR não quiseram ajudar no nosso segundo gol, mas o Cucurella saiu de campo com nota 7.4 da comunidade — faturando seu terceiro prêmio de melhor em campo nos últimos meses. É o tipo de jogador que a entrega absurda nunca é colocada em xeque.
Nesse mesmo jogo pesado que terminou em 1 a 1, presenciamos também o retorno do Levi Colwill. O cara não começava uma partida desde que rompeu o ligamento cruzado na pré-temporada. Jogar 90 minutos num caldeirão como Anfield, logo de cara e num momento em que a equipe não vivia sua forma mais brilhante, e ainda entregar um nível de futebol altíssimo (levou nota 7.3) mostra muito sobre a cabeça dele. O próprio treinador fez questão de exaltar o talento e o psicológico da cria de Cobham. E, para coroar a tarde de boas atuações individuais, o vice-capitão Enzo Fernández (7.2) guardou o dele. Chegou a 14 gols na temporada por todas as competições. Para colocar isso em perspectiva, o último meia central do Chelsea a meter tanto gol assim foi um tal de Frank Lampard, que cravou 17 bolas na rede na distante temporada 2012-13.
O talento “especial” sob o olhar de Rosenior
Aí a página vira, o cenário muda para o Selhurst Park e o roteiro ganha muito mais ginga. Pela 23ª rodada da Premier League, já com Liam Rosenior na beira do gramado, o Chelsea fez 3 a 1 no Crystal Palace. E quem resolveu chamar a responsabilidade foi o Estêvão. O moleque simplesmente tomou conta do jogo, deixando a sua marca com um gol e ainda servindo a assistência para o João Pedro também balançar as redes.
Na coletiva pós-jogo, Rosenior meio que se rendeu. Ele definiu o ex-Palmeiras como um talento raríssimo, um jogador com habilidades muito fora da curva. Mas o técnico fez questão de dividir os holofotes: lembrou que o espaço que o garoto acha para criar toda essa mágica vem do sacrifício coletivo, dos 11 caras correndo de forma incansável atrás da bola.
A influência brasileira, aliás, não ficou só no terço final. O comandante aproveitou para dar os devidos créditos à leitura tática do Andrey Santos. Contra o Palace, o Andrey operou mais recuado, fazendo aquele papel de transição na base da jogada, um misto de zagueiro e primeiro volante na hora da saída. Rosenior se diz um cara de sorte por ter o garoto no elenco, lembrando que já tinha visto o Andrey desempenhar essa mesmíssima função contra pedreiras como o Olympique de Marselha e o PSG na temporada passada, quando ele brilhava lá pelo Strasbourg.
Hoje, a tabela mostra o Chelsea ali na quinta posição, respirando no cangote do Manchester United com 37 pontos, apenas um a menos que os Red Devils que fecham o G4. Rosenior tem mantido um discurso bem pé no chão. Ele descarta essa vaidade de dizer que “esse é o time do Liam”, ressaltando que o grupo já vinha jogando um bolão antes mesmo da chegada dele. O que importa no fim do dia é consolidar essa mentalidade vencedora. Se o time continuar mesclando o suor de Anfield com a genialidade de Selhurst Park, as coisas devem fluir de forma bem natural daqui para frente.